quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mudou Como?

Tudo mudou. Homens, coisas e animais mudaram de lã ou de pele. As palavras já não são as mesmas do tempo em que estudávamos gramática com os olhos míopes das professoras. Nádegas e pernas das mestras -- objecto directo do nosso desejo -- ofuscavam o interesse pela didáctica. Olho o mundo de todos os ângulos possíveis e tudo me parece oblíquo. É a civilização globalizada, a cultura de massa, a sagração do factóide, a fragmentação dos idiomas. Corta-se a palavra em furações microscópicas. A vida, o amor, a morte, a realidade:
tudo agora virou fast food.

Sobre o autor:
Cearense, Francisco Carvalho nasceu em 1927 em São Bernardo das Russas, interior do Ceará. Poeta e ensaísta, é conhecido por seu valor literário e reverenciado pelos mais diversos críticos do país.

Águas turvas

Ocorreu-me que talvez não pertenças a este Mundo
Talvez vivas num outro que desconheço.
Vives cercada de espelhos
E entregas a tua dor ao Tempo.

Porém, também eu me ajoelho
Quando Ele passa discreto
Mas a dor não deixo que a leve;
Que leve antes a tua memória
Enquanto não é dor.

É da janela que vês a lua
(porque toda a grandeza ainda te deixa sem fôlego)
Sei também que me desprezas,
Tanto quanto ao amor
No entanto é evidente que dele dependes
E tão bom quando o mostras.

Troquei-te por outra oportunidade
Já retirei tudo de ti,
Agora deixo-te.
Continuarei a pelejar do teu lado
Com as nossas mãos quase tocando-se
Embora eu rasteje no chão em que te ergues
.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Zico e javalis

Caçar Javalis e ter discussões fúteis
nada peço mais que isto
é por este sonho que resisto
à sociedade do facturar

O telemóvel toca
Dizem-me - a mesa está posta
-Teus amigos chegaram
E já estão a beber


Arrasto o bicho com uma corda
Que pesa demais para levar às costas
Todos os vizinhos me saúdam
Oiço os míudos a gritar

Chego a casa , entro na área
qual Zico em campo
mando a bola ao ângulo
- Há javali pró jantar

Tempero o bicho com sal e alho
Os convidados já beberam pra caralho
Gritam-se urras
Pintura de gol!


As meninas do Surf

As meninas do surf
saltam da cachoeira
húmidas e ingremes ladeiras
onde praticam o amor.

As meninas do surf
não sabem falar
mas não deixam de gritar
(agarradas a cordas)
Ufa! que calor.

Tomam banhos de champagne
pequenos bikinis
bebendo martinis
Eis as meninas do surf.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sou maricas!

Sou maricas! sou muito maricas
de manhã de tarde e à noite sou maricas
sou maricas até desmaiar ou até mesmo depois da morte
sou maricas....... Até em outra vida

Sabem porque sou maricas?
porque não me agradam nada os homens
os programados
os que resistem os que aguardam os que guardam, esses moderados
os homem senha
que aguardam pacientemente uma autorização para pensar livremente
que guardam tudo, e não guardando nada, à espera,
a espera que só o seu coração de aço aguenta
que se moderam mutuamente para que se pareçam todos

Se eu realmente for maricas
todos vocês que encontram sinais de homossexualidade em mim
serão sem dúvida... maricas