sábado, 31 de dezembro de 2011

Linhas

Levado pelo ritmo de uma música vou lá atrás onde fiquei caído.

Sempre falei do tempo e sempre o escrevi como sendo traiçoeiro,

Faço-me de esquecido

mas, não há verdade maior do que o tempo que passa

Se descobrir uma palavra para a sua ausência

deixo de escrever sobre ele

Não é a eternidade que procuro,

ela só me iria contradizer

Apenas peço um momento suficientemente pequeno

para se perder de si mesmo

e de tal maneira obsceno

 que me faça desistir da ideia de o recuperar

Por muito que a indecisão me empurre para a noite

É com pratica que se chega à perfeição

mas também não é o que procuro,

não saberia como parar.
 
 
 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Conscienciocentrismo

Poucas vezes penso sozinho,
é preguiça ou natureza?
É moderno!
Entrarei em contra-ciclo                                                                
Isso é certo                                                                                  
Hoje estou a pensar


Já me cansei
De falhar,
De roubar o que não é meu                                                   
Ou sou avesso                                                                         
A essas ideias que desconheço
Não lhes quero pegar

Enfureço.


Se me ousam falar em sociedade
Rebento!
Tenho vontade de me levantar                                                       
Quando todo o mundo desce                                
Quando todo o mundo cresce
Deixem estar...
Entrei em contra-ciclo
E não me quero deter.

Compreendi a inércia 
Sinto-me criminoso 
Penso logo sou perigoso 
Deixo-me castigar
Contudo, ela move-se
Distinta, mas não única
Deu uma volta inteira
E o sol...
Esse, brilha de emoção!

Gaia dormência

Posso eu escolher
um modo de vida
um personagem para ser
eu mesmo mas diferente
é isso que quero
aterar o passado e o presente
mantendo o futuro incerto
atar as promessas que me fiz
a um outro tempo
Que as leve o vento
já não as quero para mim
este não é o momento
para me sentir assim
sozinho
faz frio
e a razão dormente
adormecido me encontro contente
por não me ver aqui


adormecido me encontro ciente
Viver é um frete
Deitei-me para sempre


Isso queria eu.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Isto não leva a lado nenhum

Sou de natureza masturbante. Sintéticamente é isto.
Sou ávido de tudo o que é bom, mas cauteloso.
Cada um procura o seu abismo, e eu não me envergonharia de o olhar nos olhos,
de o fixar com uma fome esganada, não muito diferente da dos bichos.

Bichos é o que mais há. Vejo-os afogarem-se nas pernas de uma mulher, elas que se passeiam sem limites.

Que o seu dominio seja restringido!
Gritam-me lá do fundo:
- Ah! mas pernas como essas não têm competição!

Vou dar mais uma olhadela...
Poderei ainda ouvir-me a mim?

-São pernas sem sentido-digo-vos eu
-seria loucura trepar por elas!


-Sim, talvez. Mas diz-se que no seu centro o abismo toca o céu.
Será?
Então, com a vossa licença.


... ... ... ... ... ... ... ...
Tenho os pés a arder.
Verte-se o sonho, aqueço as mãos.

... ... ... ... ... ... ...

Abram as portas!
Ao desejo que (se) toca.
Que não se condene a vaidade, a imagem como uma torre imensa, que se eleva aos céus e que... não se deixa cobrir!

Agora procura esse desejo entre as mãos.



Sobre abismos Nietzsche diria:

Esofágico o mergulho
Na sua caverna,
Asfixia o seu nome
Gritá-lo-emos de novo

Em Ciclos inconsequentes
Correm as águas,
              levam a lado nenhum


... a lado nenhum.
Lá está o prato com lírios desenhados a grossas pinceladas
No pano que repousa sobre a contrução
A madeira que desafia ergue-se além dos olhos, não da curiosidade
Rastejo com a cabeça no ar e a barriga no chão.

Um desafio que só a mim me diz respeito
Não vá ela pensar que lhe devo explicação
Vou-me antes deslizando para debaixo da banca
Bigodes a saltar de emoção

Ponho olhar manhoso, em espera
Qual rato de olhos no queijo, não no prato
Ainda não o ataco
Que medo não tenho mas sim precaução.

Direcção Intendente - triologia da dependência III

Sei que me olhas
Com vontade de saltar.


Areeiro, 12:45

O metro passa,
Corta-nos  a visão
Fez-se luz em ti.
Tens fome?
Eu não.
 
Retribuo com desprezo
Esse teu "amar".

Continuo mergulhado
Em mínimas importâncias
Por assim dizer...


Fizeram de mim
Homem astuto
Não mais crente
Nas verdades frias
As que me vendias
Ao som de uma qualquer música
Da Maria Bethânia.

Hoje sou eu que toco a musica
Tu danças grosseiramente
Bate forte o arrependimento
Não tens ritmo nenhum.

Danças sozinha
E aquele erro que me deste a beber
Matou a sede do duro crescimento

Tolice!
Não a tua
Apenas a minha
Hoje sou senhor de mim.

Prosa em D Menor - triologia da dependência II

Foste-me atirado para a boca era eu muito novo, assim como a tantos outros...
Não sabia eu, que as tuas unhas imundas se entranhavam em meio Mundo,
do outro meio um qualquer irmão teu, nascido sem mãe, se encarregava.

Quantas as vezes em que das profundezas do abismo chamei por ti senhor,
por ti voltei a chamar sempre que achei necessário.

Vezes e vezes sem conta.

Esse o meu erro, e por ele vives; é dele que te alimentas,
engolindo esperanças de leprosos e viúvas, cegos ignorantes, filhas e netos que nasceram partilhando útero comum.
Esses os futuros cadáveres que te hão-de servir de ponte, os animais dos quais reclamas ser pai.

Sim, gritarás vitória em breve, assim que acordares;
Não tenho dúvidas que será tua, aliás sem grande dificuldade.
Terás um belo banquete, beberás do melhor vinho e com ele empurrarás os tristes pela garganta abaixo.

Em nada me preocupa que os acompanhe, até lá continuarei a cuspir na cama onde te deitas.

D. Branca - triologia da dependêcia I

As sombras cruzam-se com a calçada,
Numa bela dança estática
Que a luz dilui num clarão,
Rajada de prismas
Decompostos em dor
Êxtase em estado puro
Rodando sem dimensão.

Olhares incestuosos
Queimam manifestos,
Corpos banhados
Por consciências em ebulição,
Dinâmica folheatura
Exaltando liberdade,
Prazer com perdão.

Carrossel de escondidos sorrisos
Rodando com o fulgor de quem
Faz inveja ao sol,
Esse meigo acto de cocainizar
Ávido de ti,
É magismo aquecendo o paladar
Pó transformado em ilusão.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mudou Como?

Tudo mudou. Homens, coisas e animais mudaram de lã ou de pele. As palavras já não são as mesmas do tempo em que estudávamos gramática com os olhos míopes das professoras. Nádegas e pernas das mestras -- objecto directo do nosso desejo -- ofuscavam o interesse pela didáctica. Olho o mundo de todos os ângulos possíveis e tudo me parece oblíquo. É a civilização globalizada, a cultura de massa, a sagração do factóide, a fragmentação dos idiomas. Corta-se a palavra em furações microscópicas. A vida, o amor, a morte, a realidade:
tudo agora virou fast food.

Sobre o autor:
Cearense, Francisco Carvalho nasceu em 1927 em São Bernardo das Russas, interior do Ceará. Poeta e ensaísta, é conhecido por seu valor literário e reverenciado pelos mais diversos críticos do país.

Águas turvas

Ocorreu-me que talvez não pertenças a este Mundo
Talvez vivas num outro que desconheço.
Vives cercada de espelhos
E entregas a tua dor ao Tempo.

Porém, também eu me ajoelho
Quando Ele passa discreto
Mas a dor não deixo que a leve;
Que leve antes a tua memória
Enquanto não é dor.

É da janela que vês a lua
(porque toda a grandeza ainda te deixa sem fôlego)
Sei também que me desprezas,
Tanto quanto ao amor
No entanto é evidente que dele dependes
E tão bom quando o mostras.

Troquei-te por outra oportunidade
Já retirei tudo de ti,
Agora deixo-te.
Continuarei a pelejar do teu lado
Com as nossas mãos quase tocando-se
Embora eu rasteje no chão em que te ergues
.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Zico e javalis

Caçar Javalis e ter discussões fúteis
nada peço mais que isto
é por este sonho que resisto
à sociedade do facturar

O telemóvel toca
Dizem-me - a mesa está posta
-Teus amigos chegaram
E já estão a beber


Arrasto o bicho com uma corda
Que pesa demais para levar às costas
Todos os vizinhos me saúdam
Oiço os míudos a gritar

Chego a casa , entro na área
qual Zico em campo
mando a bola ao ângulo
- Há javali pró jantar

Tempero o bicho com sal e alho
Os convidados já beberam pra caralho
Gritam-se urras
Pintura de gol!


As meninas do Surf

As meninas do surf
saltam da cachoeira
húmidas e ingremes ladeiras
onde praticam o amor.

As meninas do surf
não sabem falar
mas não deixam de gritar
(agarradas a cordas)
Ufa! que calor.

Tomam banhos de champagne
pequenos bikinis
bebendo martinis
Eis as meninas do surf.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sou maricas!

Sou maricas! sou muito maricas
de manhã de tarde e à noite sou maricas
sou maricas até desmaiar ou até mesmo depois da morte
sou maricas....... Até em outra vida

Sabem porque sou maricas?
porque não me agradam nada os homens
os programados
os que resistem os que aguardam os que guardam, esses moderados
os homem senha
que aguardam pacientemente uma autorização para pensar livremente
que guardam tudo, e não guardando nada, à espera,
a espera que só o seu coração de aço aguenta
que se moderam mutuamente para que se pareçam todos

Se eu realmente for maricas
todos vocês que encontram sinais de homossexualidade em mim
serão sem dúvida... maricas